CAISSANA BRASILEIRA, ARTHUR NAPOLEÃO E CALDAS
VIANA:
PRIMEIRAS SUMIDADES NA HISTÓRIA DO XADREZ
BRASILEIRO
“Um país é feito de homens e livros.”
“Os amadores de Xadrez d’esta região da América
congratular-se-hão comigo de certo, por ter tido a
ideia de reunir em volume uma seleção dos melhores problemas dos nossos autores.”
Assim começa Arthur Napoleão a
introdução a sua obra Caissana Brasileira, publicada em 1898. No “romântico” xadrez
da segunda metade do século XIX, no Brasil, não havia uma linha clara de
demarcação entre jogadores, compositores e solucionistas. Não havia
profissionais de xadrez, nem torneios organizados tais como havia na Europa, e
os conhecedores de xadrez, em geral, praticavam indistintamente todas as
facetas das atividades enxadrísticas. O próprio Arthur Napoleão era um dos
melhores jogadores e também um dos melhores compositores. Veja abaixo um de seus problemas:
Problema 1 - Arthur
Napoleão

#3
(11+7)
“Caissana
Brasileira” é essencialmente um livro sobre problemas de xadrez, contendo cerca
de 430 diagramas. Contudo, na introdução o autor resume a história do xadrez no
Brasil até aquele ano de 1898. De acordo com ele, essa história começa apenas
vinte anos antes da publicação de seu livro (“O conhecimento do xadrez no
Brasil data de uns vinte anos a esta parte.”).
Entre os jogadores-compositores que
Napoleão cita, há figuras proeminentes da vida política, social e cultural
daquela época, no Brasil: por exemplo, os músicos Leopoldo Miguez e Carlos
Gomes (Napoleão mesmo era um pianista famoso), o almirante Saldanha da Gama e o
famoso escritor J. M. Machado de Assis (um dos 100 gênios da literatura
ocidental na seleção feita pelo crítico americano Harold Bloom para seu livro
“Gênio”).
No
que se refere a xadrez, acima de todos esses ilustres amadores, eleva-se João
Caldas Viana Neto (conhecido nos círculos enxadrísticos simplesmente como
Caldas Viana), nascido em 1862 de uma família nobre e tradicional. Seu pai,
João Caldas Viana Filho, o Visconde de Pirapetinga, era amigo do imperador D.
Pedro II, que era sabidamente um protetor das artes.
Caldas
Viana distinguiu-se como organizador de xadrez, jogador e não menos como compositor
de problemas de xadrez. Um entusiasta na organização e promoção do xadrez, ele
fundou e dirigiu clubes, editou colunas de xadrez em jornais, ajudou Arthur Napoleão
na preparação de seu livro, etc.
Como
jogador de xadrez, Caldas Viana foi largamente aclamado como o melhor da
América do Sul na época. Em 1905, ele empatou um match com o mestre
Rudolph Teichman, adversário de Rubinstein, Alekhine e Lasker nos grandes
torneios do início do século XX. Depois do match, Caldas Viana mostrou a
Teichman suas originais pesquisas em aberturas, especialmente a Ruy Lopez e o
Gambito Evans. Sua variante favorita da Ruy Lopez, ele jogando com as pretas, foi batizada “Rio de Janeiro” e mereceu um elogioso artigo
do grande Emmanuel Lasker, na revista francesa “La Stratégie”.
A
seguinte partida de Caldas Viana é bem conhecida por seu brilhante ataque final
e foi saudada por décadas como a “Imortal Brasileira”:
Brancas:
Caldas Viana
Pretas:
A. Silvestre
Rio
de Janeiro 1900
Gambito
Evans
1.e4
e5 2.Cf3 Cc6 3.Bc4 Bc5 4.b4 Bxb4 5.c3 Ba5 6.d4 exd4 7.0-0 d6 8.Db3 Df6 9.e5
dxe5 10.Te1 Bd7 11.Bg5 Df5 12.Cxe5! Cxe5 13.f4 f6 14.Dxb7
Td8 15. fxe5 fxg5 16.Tf1 Dxe5 17.Cd2 Ce7 18.Tae1 Dc5
19.Bf7+ Rf8 20.Bg6+ Bf5 21.Bxf5 Cxf5 22.Ce4 Db6 23.Txf5+ Rg8
(diagrama).
O cenário está armado
para uma jogada de problema...

posição após 23...Rg8
24.Cd6!!
dxc3+
“Objetivamente” falando,
melhor para o negro era 24...Dxb7 25.Cxb7 Bxc3 26.Cxd8
Bxe1 27.Rf1!? (talvez 27.Cf7 g6 28.Tf1 Bd2 29.g3!?, como
sugerido pelo GM Darcy Lima, fosse uma tentativa melhor para o branco) 27... g6 (27...Bd2 28.Re2 g6 29.Tf1 Bb4 30.Cf7) 28.Tf7 Ba5 29.Td7
h6 30.Cxd4 Bxd4 31.Txd4 Rf7 32.Td7+ Re6 33.Txc7 Tf8+ 34.Re2 Tf7, com um provável
empate. Mas nesse caso o elegante arremate que se segue jamais teria ocorrido...
25.Rh1
h6 26.Dd5+ Rh7 27.De4! Rg8 28.De6+ Rh7 29. Tf6! Thf8
30.Df5+ Rg8 31.Txf8+ Txf8 32.Dxf8+! Rxf8 33.Te8 mate (um
modelo!).
Como compositor de xadrez, Caldas
Viana era também geralmente considerado o melhor da época no Brasil. Dentre uma
dúzia de seus problemas apresentados na “Caissana Brasileira”, escolhi os
seguintes diretos em dois lances:
|
Problema 2 – Caldas Viana |
Problema 3– Caldas Viana |
|
|
|
|
#2
(12+6) |
#2
(12+10) |
Mas o problema mais famoso de todos os publicados na “Caissana
Brasileira” é, sem dúvida, este elegantíssimo e finamente construído direto em
três lances, que encerra este artigo:
Problema 4 – Caldas Viana
Caissana Brasileira 1898 (após Chess Monthly
1882)

#3
(7+6)
Soluções
Problema 1: 1.Th4 zz.; 1…C qualquer 2.Cge6 e 3.Ta6#; 1…Rc5 2.Cd3+ Rd4 (2...Rc5
3.Ta6#) 3.Cf3#
Problema
2: 1.Da3 zz.; 1...Re5 (Rxe3) 2.d4# ; 1...T
qualquer 2.Da7#; 1...B qualquer 2.Dc3#
O
primeiro par de variantes apresenta dois mates distintos explorando pregaduras,
dados pelo mesmo lance de peão, e o segundo par exibe aberturas de linhas por
jogadas feitas pelas mesmas peças pregadas no primeiro par, ambas respondidas
por mates dados pela dama branca. Chave duplamente ampliativa. Um conjunto
belo, original e harmonioso. Uma obra de mestre, dada a época em que foi realizada.
Problema
3:1.Da1
zz.; 1...T(c3) qualquer 2.Tf5#; 1...C(c5) qualquer 2.Tf5#; 1…Cd3 (correção
preta) 2.Ce3#; 1…C(e4) qualquer 2.Cf6#; 1...Rxd4 2.Td2#
Outra
bela combinação de pregaduras e aberturas de linhas, com uma correção preta.
Problema 4: 1.Rg8!! zz.
1...Rd3 2.Df4: i)
2...Rc3 3.Dd2#; ii)2...d4 3.Dxf3#; iii) 2...c3 3.Bb5#
1...d4 2.Db7!: i) 2...Rd3 3.Dxf3#; ii) 2...d3 3.Dg7#
1...Rd4 2.Td2+:
i) 2...Rc3 3.Db2#; ii) 2...Re4 3.Bc2#; iii) 2...Rc5 3.Df8#
Chave
soberba, belas e precisas variantes. Uma obra-prima!