CAISSANA BRASILEIRA, ARTHUR NAPOLEÃO E CALDAS VIANA:

PRIMEIRAS SUMIDADES NA HISTÓRIA DO XADREZ BRASILEIRO

Por Marcos  Maldonado Roland – Editor da revista de xadrez “Lance”(1995-1999)

 

“Um país é feito de homens e livros.”

Monteiro Lobato

                       

“Os amadores de Xadrez d’esta região da América congratular-se-hão comigo de certo, por ter tido a ideia de reunir em volume uma seleção dos melhores problemas dos nossos autores.”

 

                        Assim começa Arthur Napoleão a introdução a sua obra Caissana Brasileira, publicada em 1898. No “romântico” xadrez da segunda metade do século XIX, no Brasil, não havia uma linha clara de demarcação entre jogadores, compositores e solucionistas. Não havia profissionais de xadrez, nem torneios organizados tais como havia na Europa, e os conhecedores de xadrez, em geral, praticavam indistintamente todas as facetas das atividades enxadrísticas. O próprio Arthur Napoleão era um dos melhores jogadores e também um dos melhores compositores. Veja abaixo um de seus problemas:

 

Problema 1 - Arthur Napoleão

#3                                                  (11+7)

 

                                “Caissana Brasileira” é essencialmente um livro sobre problemas de xadrez, contendo cerca de 430 diagramas. Contudo, na introdução o autor resume a história do xadrez no Brasil até aquele ano de 1898. De acordo com ele, essa história começa apenas vinte anos antes da publicação de seu livro (“O conhecimento do xadrez no Brasil data de uns vinte anos a esta parte.”).

 

                        Entre os jogadores-compositores que Napoleão cita, há figuras proeminentes da vida política, social e cultural daquela época, no Brasil: por exemplo, os músicos Leopoldo Miguez e Carlos Gomes (Napoleão mesmo era um pianista famoso), o almirante Saldanha da Gama e o famoso escritor J. M. Machado de Assis (um dos 100 gênios da literatura ocidental na seleção feita pelo crítico americano Harold Bloom para seu livro “Gênio”).

 

No que se refere a xadrez, acima de todos esses ilustres amadores, eleva-se João Caldas Viana Neto (conhecido nos círculos enxadrísticos simplesmente como Caldas Viana), nascido em 1862 de uma família nobre e tradicional. Seu pai, João Caldas Viana Filho, o Visconde de Pirapetinga, era amigo do imperador D. Pedro II, que era sabidamente um protetor das artes.

 

Caldas Viana distinguiu-se como organizador de xadrez, jogador e não menos como compositor de problemas de xadrez. Um entusiasta na organização e promoção do xadrez, ele fundou e dirigiu clubes, editou colunas de xadrez em jornais, ajudou Arthur Napoleão na preparação de seu livro, etc.

 

Como jogador de xadrez, Caldas Viana foi largamente aclamado como o melhor da América do Sul na época. Em 1905, ele empatou um match com o mestre Rudolph Teichman, adversário de Rubinstein, Alekhine e Lasker nos grandes torneios do início do século XX. Depois do match, Caldas Viana mostrou a Teichman suas originais pesquisas em aberturas, especialmente a Ruy Lopez e o Gambito Evans. Sua variante favorita da Ruy Lopez, ele jogando com as pretas, foi batizada “Rio de Janeiro” e mereceu um elogioso artigo do grande Emmanuel Lasker, na revista francesa “La Stratégie”.

 

A seguinte partida de Caldas Viana é bem conhecida por seu brilhante ataque final e foi saudada por décadas como a “Imortal Brasileira”:

 

Brancas: Caldas Viana

Pretas: A. Silvestre

Rio de Janeiro 1900

Gambito Evans

 

1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bc4 Bc5 4.b4 Bxb4 5.c3 Ba5 6.d4 exd4 7.0-0 d6 8.Db3 Df6 9.e5 dxe5 10.Te1 Bd7 11.Bg5 Df5 12.Cxe5! Cxe5 13.f4 f6 14.Dxb7 Td8 15. fxe5 fxg5 16.Tf1 Dxe5 17.Cd2 Ce7 18.Tae1 Dc5 19.Bf7+ Rf8 20.Bg6+ Bf5 21.Bxf5 Cxf5 22.Ce4 Db6 23.Txf5+ Rg8 (diagrama).

O cenário está armado para uma jogada de problema... 

 

posição após 23...Rg8

24.Cd6!! dxc3+

“Objetivamente” falando, melhor para o negro era 24...Dxb7 25.Cxb7 Bxc3 26.Cxd8 Bxe1 27.Rf1!? (talvez 27.Cf7 g6 28.Tf1 Bd2 29.g3!?, como sugerido pelo GM Darcy Lima, fosse uma tentativa melhor para o branco) 27... g6 (27...Bd2 28.Re2 g6 29.Tf1 Bb4 30.Cf7) 28.Tf7 Ba5 29.Td7 h6 30.Cxd4 Bxd4 31.Txd4 Rf7 32.Td7+ Re6 33.Txc7 Tf8+ 34.Re2 Tf7, com um provável empate. Mas nesse caso o elegante arremate que se segue jamais teria ocorrido...

25.Rh1 h6 26.Dd5+ Rh7 27.De4! Rg8 28.De6+ Rh7 29. Tf6! Thf8 30.Df5+ Rg8 31.Txf8+ Txf8 32.Dxf8+! Rxf8 33.Te8 mate (um modelo!).

                       

Como compositor de xadrez, Caldas Viana era também geralmente considerado o melhor da época no Brasil. Dentre uma dúzia de seus problemas apresentados na “Caissana Brasileira”, escolhi os seguintes diretos em dois lances:

 

Problema 2 – Caldas Viana

 

Problema 3– Caldas Viana

#2                                                  (12+6)

#2                                                 (12+10)

 

Mas o problema mais famoso de todos os publicados na “Caissana Brasileira” é, sem dúvida, este elegantíssimo e finamente construído direto em três lances, que encerra este artigo:

 

Problema 4 – Caldas Viana

Caissana Brasileira 1898 (após Chess Monthly 1882)

#3                                            (7+6)

 

Soluções

 

Problema 1: 1.Th4 zz.; 1…C qualquer 2.Cge6 e 3.Ta6#; 1…Rc5 2.Cd3+ Rd4 (2...Rc5 3.Ta6#) 3.Cf3# 

Problema 2: 1.Da3 zz.; 1...Re5 (Rxe3) 2.d4# ; 1...T qualquer 2.Da7#; 1...B qualquer 2.Dc3#

O primeiro par de variantes apresenta dois mates distintos explorando pregaduras, dados pelo mesmo lance de peão, e o segundo par exibe aberturas de linhas por jogadas feitas pelas mesmas peças pregadas no primeiro par, ambas respondidas por mates dados pela dama branca. Chave duplamente ampliativa. Um conjunto belo, original e harmonioso. Uma obra de mestre, dada a época em que foi realizada.  

Problema 3:1.Da1 zz.; 1...T(c3) qualquer 2.Tf5#; 1...C(c5) qualquer 2.Tf5#; 1…Cd3 (correção preta) 2.Ce3#; 1…C(e4) qualquer 2.Cf6#; 1...Rxd4 2.Td2#

Outra bela combinação de pregaduras e aberturas de linhas, com uma correção preta.

Problema 4: 1.Rg8!! zz.

1...Rd3 2.Df4: i) 2...Rc3 3.Dd2#; ii)2...d4 3.Dxf3#; iii) 2...c3 3.Bb5#

1...d4 2.Db7!: i) 2...Rd3 3.Dxf3#; ii) 2...d3 3.Dg7#

1...Rd4 2.Td2+: i) 2...Rc3 3.Db2#; ii) 2...Re4 3.Bc2#; iii) 2...Rc5 3.Df8#

Chave soberba, belas e precisas variantes. Uma obra-prima!