XADREZ E AS DIFICULDADES (?) DE APRENDIZAGEM

Fatima Santos

 

Colégio Santa Mônica

Escola Municipal Frederico Eyer

Clube Escolar Rio das Pedras

 

 

Após ser apresentada ao xadrez pelas mãos de dois alunos da 7ª série da Escola Municipal Pedro Aleixo (7ª CRE), com vistas aos Jogos Estudantis da Cidade do Rio de Janeiro, o “jogo dos reis” passou a tomar partes das aulas de Educação Física da referida escola.  Com essa prática foi possível perceber que alunos, de faixas etárias diferenciadas, com indicativos de hiperatividade tinham atração e facilidade com esse jogo.  Com a sistematização das aulas não demorou para que essa constatação se estendesse às dificuldades de aprendizagem.  Crianças que apresentavam dificuldades na aquisição da leitura e da escrita, aprendiam xadrez!  Como pode?  Aprender um jogo tão complexo e não aprender a ler e escrever?

Esse trabalho tem como finalidade apresentar os fundamentos teóricos do projeto “Além xeque”, desenvolvido na Escola Municipal Frederico Eyer no Rio de Janeiro, fruto desse caminhar no ensino do xadrez em várias instituições de ensino (especialmente da Rede Municipal do Rio de Janeiro) e das reflexões advindas dessa práxis.  A intenção é contribuir para o entendimento do xadrez para além do xeque-mate (objetivo do jogo); para além do raciocínio lógico-matemático (com o qual é mais comumente relacionado); refletir sobre as dificuldades de aprendizagem e sobre a nossa intencionalidade pedagógica.

Na busca de referencial teórico para dar sustentação àquelas observações, deparei-me com os escritos de Vygotscky e seu paradigma histórico-cultural.  Para esse autor o desenvolvimento humano é pautado em três dimensões: genética, sócio-cultural e subjetiva.  A primeira diz respeito ao desenvolvimento da raça humana em comparação com outros seres vivos (filogenética) e também ao desenvolvimento do complexo arcabouço que é o ser humano enquanto organismo vivo (ontogenética).  A dimensão sócio-cultural diz respeito ao meio onde esse complexo arcabouço está inserido.  O exemplo mais clássico é o dos “meninos lobos”.  Crianças que se desenvolveram bio e fisiologicamente de acordo com o esperado para a raça humana, porém só aprenderam a falar, por exemplo, quando tiveram contato com seres falantes.  E, por último, porém não menos importante, a dimensão subjetiva, que diz respeito ao “Eu” de cada um.  Suas aflições, conflitos, posicionamento subjetivo no mundo, relações, etc..

O resgate da construção teórica de Vygotscky traz, a reboque, uma gama de diferentes áreas do conhecimento para dar suporte ao entendimento do desenvolvimento humano: neurociências (neurobiologia, neurofisiologia, neuroanatomia...), antropologia, sociologia, psicologia, pedagogia, filosofia...  O grande desafio dos profissionais da educação, mais precisamente dos professores, é o que fazer com essa quantidade enorme de conhecimento que tem sido gerado, na maioria das vezes unidisciplinarmente, sobre o fenômeno aprendizagem?  Como lidar, na realidade dinâmica do cotidiano das salas de aula, com tantos e tão variados conhecimentos gerados a partir do isolamento da realidade?  

Com certeza esses conhecimentos não devem servir para incutir mais rótulos ao aluno, mas sim para encontrar caminhos para desenvolver o seu potencial.  Como freqüentemente diz em suas palestras a psicóloga Soraya Jordão, que trabalha com dificuldades de aprendizagem: “as dificuldades de aprendizagem existem, o que não existe é impossibilidade de aprendizagem”.

É provável que quanto mais nos aproximarmos das respostas àquelas perguntas, mais perto estaremos da tão almejada educação de qualidade.

Vygotscky e seus seguidores nos trazem as funções psicológicas superiores, alvo de inúmeros estudos das neurociências hoje e fortes aliadas na relação xadrez / aquisição da leitura e da escrita.  São elas: memória, percepção, atenção, pensamento e imaginação.

A memória é base de toda e qualquer aprendizagem e no xadrez ela é requisitada o tempo todo, desde o nível mais elementar de jogo até o mais avançado.  Uma exigência elementar é que o aluno lembre o posicionamento inicial das peças no tabuleiro.  Ou a lembrança dos movimentos de cada peça, visto que são seis tipos de peças diferentes no jogo e cada uma se movimenta e captura[1] de forma diversa uma das outras.

Na leitura, a percepção é importante, por exemplo, no discernimento da figura e do fundo, ou seja, o aluno deve identificar as letras em um fundo normalmente branco, a página do livro.  O xadrez também tem se mostrado um bom instrumento pedagógico para potencializar essa função psicológica superior.  São várias as situações que podem servir como exemplo, porém, para o nível inicial dos alunos objeto desse trabalho, o movimento

do cavalo é um dos que mais se presta para esse fim.  O cavalo se movimenta quatro casas (contando com a que ele está), seguindo o traço de um “L” (em qualquer sentido e direção):

 

 

 

 

 

 

 

E o aluno deve, em um fundo quadriculado que é o tabuleiro, sem os recursos visuais que vemos na figura acima, “traçar” um “L”, também quadriculado, visto que é formado pelas casas desse mesmo tabuleiro, para movimentar o seu cavalo.

A atenção, indiscutível para qualquer aprendizagem, é fundamental durante o jogo para, dentre outras coisas, que não se cometam “lances impossíveis” (por exemplo: mover a Torre como se fosse o Bispo), pois três “lances impossíveis” faz o aluno/enxadrista perder o jogo.

Podemos entender a função psicológica superior “pensamento” como a própria elaboração do mesmo.  Elaboração necessária para organizar letras e palavras na hora de escrever, por exemplo.  Essa função é ativada o tempo todo no jogo, desde a elaboração da colocação de uma peça em uma determinada casa no tabuleiro, que por vezes exige o sacrifício de outras peças, onde entra em questão o valor de cada peça, até a elaboração de jogadas mais complexas para conseguir o xeque-mate ou capturar uma peça chave do adversário.

Finalmente, a imaginação é necessária para conseguir abstrair o sentido da representação gráfica expressa por uma determinada palavra.  Por exemplo, ao ler a palavra CAVALO, se isso não me remeter à imagem correspondente, não consigo dar sentido a uma frase que contenha essa palavra.  No xadrez, o tempo todo estamos criando jogadas, mais simples ou mais complexas, para alcançarmos o objetivo proposto: capturar o adversário, proteger nossas próprias peças, atacar o Rei adversário, etc.  Dessa forma, a praticar do jogo parece potencializar o desenvolvimento de habilidades como capacidade de antecipação, planejamento e elaboração de estratégias, dentre outras.

Algumas considerações são importantes.  O conceito de dificuldades de aprendizagem precisa ser bem circunscrito:

 


“Dificuldade de Aprendizagem (DA) é um termo geral que se refere a um grupo heterogêneo de transtornos que se manifestam por dificuldades significativas na aquisição e uso da escuta , fala , leitura , escrita, raciocínio ou habilidades matemáticas.  Esses transtornos são intrínsecos ao indivíduo, supondo-se devido à disfunção do sistema nervoso central, e podem ocorrer ao longo do ciclo vital.” (NJCLD,1988, apud Jesus N.García, 1998,p.32)


 

Note-se que, no que tange o aprendizado escolar, as dificuldades de aprendizagem estão restritas à questão da leitura e da escrita.  E só é assim, porque esses são dois legados culturais importantes.  Os alunos do projeto “além xeque”, na maioria egressos das extintas classes de progressão[2] ou retidos no ano final do I Ciclo,  não teriam dificuldade alguma se a importância atribuída a esses legados fosse outra.  Além disso, é importante perceber que esses alunos aprendem uma série de outras coisas: xadrez, informática, mecânica, dança, futebol, vôlei, natação, desenho...  A grande questão é: porque não aprendem a ler e escrever?  Como podemos reverter esse estado de coisa?

O xadrez é um instrumento potencialmente rico para desenvolver as funções psicológicas, mas não é a única forma de fazê-lo.  Aquele bom e velho joguinho da memória é um bom exemplo de uma outra possibilidade.  Mas com que intenção nós temos, (quando temos!), esse tipo de jogo na sala?  Somente para que aquele aluno que termina rápido a tarefa tenha uma ocupação, tal e qual a mãe faz em casa?  Se for isso, o que diferencia a nossa ação profissional da ação da mãe?  Se não houver intencionalidade pedagógica na ação proposta, não saímos do nível do senso comum.  É a intencionalidade pedagógica que permite que o xadrez seja uma ferramenta importante, e assim o será com qualquer outra ferramenta utilizada por qualquer professor.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

OLIVEIRA, M. K. . Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento, um processo sócio-histórico. São Paulo: Scipione, 1993.

 

REZENDE, Sylvio.  Xadrez na escola.  Uma abordagem didática para iniciantes.  Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2002.

 

SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DO RIO DE JANEIRO.  Multieducação: Núcleo Curricular Básico. Rio de Janeiro, 1996.

 

VIGOTSKI, L.S.  A formação social da mente.  São Paulo: Martins Fontes, 2003.

 

VYGOTSKY, Liev Semiónovitch.  Pensamento e linguagem. 3 ed.  São Paulo: Martins Fontes, 2005.

 

 

 



[1] Sendo o xadrez um jogo de guerra, ao tomar a peça do adversário utiliza-se o termo capturar e não comer (caso do jogo de damas).

[2] As classes de progressão abrigavam alunos que tinham 9 anos ou mais e não tinham completado o processo de alfabetização.  Foram extintas no final do ano de 2006 quando foi implantado na rede Municipal de Ensino o II e III ciclos de aprendizagem, acabando com a seriação.